Descrição
História do cinema brasileiro
(Curso em seis aulas, setembro-outubro de 2026)
Diogo Rossi Ambiel Facini
O cinema brasileiro, muitas vezes olhado com desdém pelo senso comum, é ativo desde quase o surgimento da sétima arte no mundo e vem produzindo obras bastante consistentes e variadas, tanto na forma quanto no conteúdo. Essas obras procuraram responder aos anseios, medos e sonhos do público e lidaram com diversos eventos históricos, muitas vezes criticamente. O cinema brasileiro, arte popular desde sua origem, se inseriu profundamente nos dilemas de seu tempo, oferecendo comentários, respostas ou mesmo propondo novas questões, respondidas por outros cineastas.
Neste curso, em seis aulas, veremos a rica história do cinema brasileiro e conheceremos um pouco dessa densa trama de inovações, encantamentos, saberes e críticas, que produziram um conhecimento inestimável sobre o Brasil, os rumos que tomou e aqueles que pode tomar.
12/9 – 9h00 – Aula 1 – O começo do cinema brasileiro e o período clássico do cinema nacional
Nesta aula, observaremos os primeiros passos do cinema brasileiro, na virada do século
XIX para o XX. Como o Brasil, um país predominantemente agrário e pouco industrializado no final do século XIX, teve suas primeiras gravações e exibições ainda no começo da história do cinema? Além disso, discutiremos como o cinema nacional se situou dentro da estética do cinema mudo (até o final dos anos 1920), incluindo alguns experimentos radicais, como o filme Limite, de Mário Peixoto. Observaremos também os primeiros grandes estúdios constituídos no Brasil, que procuraram oferecer uma primeira experiência de produção cinematográfica industrial e gerar algum “padrão de qualidade” em seus filmes, entre as décadas de 1930 e 1950. Por fim, veremos como, nesse período, houve o surgimento de alguns das primeiras “estrelas” do cinema nacional, como Oscarito.
19/9 – 9h00 – Aula 2 – O Cinema Novo: modernidade e resgate da identidade
Nesta aula, estudaremos o primeiro e aquele que talvez foi o mais importante dos movimentos cinematográficos brasileiros: o Cinema Novo (ocorrido nas décadas de 1960 e 1970). Autores como Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues e Leon Hirszman produziram um cinema bastante original, em que se mistura uma influência de movimentos artísticos europeus (Formalismo russo, Neorrealismo italiano, Nouvelle Vague francesa) e uma busca pela criação de um cinema genuinamente nacional, que procurasse retratar (e criar) uma identidade local.
26/9 -9h00 – Aula 3 – Glauber Rocha: o enfant terrible e mito do Cinema Novo
De todos os autores do cinema novo, Glauber Rocha foi o mais radical e o mais criativo, aquele que criou uma obra de impacto duradouro, inclusive no cinema internacional. De todos os cineastas na história do cinema brasileiro, Glauber talvez seja o mais marcante e impactante. Nesta aula, nos concentramos na obra do cineasta baiano: sua trajetória, seus principais temas, suas influências, os confrontos com seus pares e com a sociedade, suas marcas no cinema posterior.
3/10 – 9h00 – Aula 4 – O Cinema Marginal: irreverência e desconstrução
Com o aprofundamento da repressão da ditadura militar, no final dos anos 1960 e inícios dos anos 1970, houve a difusão do chamado Cinema Marginal: um movimento cinematográfico revolucionário, que consistia em produções bastante ousadas e experimentais, de baixo orçamento, e que estabeleceu um diálogo frutífero com o tropicalismo, outro movimento fundamental da época. Nessa época, observaremos como autores a exemplo de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane driblaram a censura e a limitação orçamentária para produzir obras-primas fundamentais do cinema brasileiro.
10/10 – 9h00 – Aula 5 – Os anos 1980-1990: a “década perdida” e o “surgimento” de Eduardo Coutinho
Os anos 1980 e 1990 foram um período bastante conturbado, não só na política e na sociedade brasileiras, mas também na produção cinematográfica nacional. O país passava por um momento de crise econômica severa, com inflações galopantes. Além disso, a Embrafilme, criada anteriormente em uma tentativa do governo de financiar a produção cinematográfica, foi extinta em 1990. Com isso, em dado momento, a produção nacional caiu drasticamente, chegando a quase zero. Ainda assim, nesse contexto, surgiram e se consolidaram importantes diretores, como Hector Babenco, Arnaldo Jabor, Silvio Tendler, Jorge Furtado, entre outros. Nessa década difícil, destaca-se também o cineasta Eduardo Coutinho, talvez o nosso maior documentarista. Coutinho é autor de uma obra profundamente original, que se situa em um universo todo próprio. Já em seu primeiro longa documental, o influente Cabra Marcado para Morrer (1984), Coutinho apresentava algumas das características que diferenciaram e definiram o seu cinema: ênfase na história de pessoas comuns, grande sensibilidade e empatia com os entrevistados, respeito pelos assuntos levantados nas entrevistas, busca por um retrato da cultura e da história brasileira. Coutinho seguiu criando até os seus últimos dias, dando cada vez mais espaço para a fala do outro e até mesmo discutindo os limites entre realidade e ficção (como em Jogo de Cena, de 2007).
17/10 – Aula 6 – O cinema da Retomada e os rumos do cinema contemporâneo
A partir de 1995, houve o período chamado de Retomada, com o retorno de políticas de fomento da produção cinematográfica nacional e um florescimento de produções importantes, que chegaram a fazer sucesso comercial e a ganhar prêmios internacionais. O filme Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995), de Carla Camurati, é considerado o marco inicial da Retomada. Outros dois filmes de grande repercussão do período foram Central do Brasil (1998), de Walter Salles, e Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund. O cinema brasileiro seguiu com produções relevantes, apresentando uma importante contradição, devido à presença e à influência da empresa Globo Filmes, que financia obras de impacto comercial, como as muitas comédias produzidas – obras essas muitas vezes de pouca relevância crítica ou artística. Nos últimos anos, pode-se até considerar que o cinema nacional passa por um novo florescimento, com produções bastante relevantes e, inclusive, de vida internacional importante. O diretor mais notório nesse sentido é Kleber Mendonça Filho, que produz uma obra ao mesmo tempo debitária de influências estrangeiras (como o cinema de gênero estadunidense) e possuidora de um tom crítico, de defesa da cultura local e de denúncia de mazelas atuais, como a especulação imobiliária.





